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2026, o ano da gestão, não do crescimento

2026, o ano da gestão, não do crescimento

2026 não é o ano de crescer mais. É o ano de gerir melhor – e quem não entender isso vai pagar caro

Por anos, o discurso predominante no agronegócio brasileiro girou em torno de uma única métrica: crescimento. Mais hectares, mais receita, mais área plantada, mais unidades de negócio. Era a régua usada para medir sucesso, em apresentações, em conversas de corredor, em planejamento estratégico.

Esse discurso ainda existe. Mas o cenário que o sustentava mudou – e quem não perceber essa mudança corre o risco de confundir os sinais que o mercado está dando.

Um conjunto de pressões que não aparece isolado

O agronegócio brasileiro entra em 2026 com uma combinação pouco comum de fatores pressionando simultaneamente: margens mais estreitas em culturas-chave, clima cada vez mais imprevisível, custos de insumos pressionados por instabilidade geopolítica internacional, juros elevados tornando o crédito mais caro, e uma reforma tributária que ainda gera incerteza sobre seus efeitos práticos.

Nenhum desses fatores, isoladamente, seria motivo de alarme. O agro brasileiro já enfrentou ciclos difíceis antes e segue sendo um dos setores mais competitivos do mundo, com projeções de valor bruto de produção próximas de R$1,6 trilhão. A questão é que, quando vários desses fatores se somam ao mesmo tempo, o que era margem de manobra desaparece rapidamente – e revela quais empresas estavam preparadas para isso e quais não estavam.

O que a alta de recuperações judiciais está mostrando

Um dos sinais mais claros dessa mudança de cenário é o aumento de processos de recuperação judicial no setor. É tentador atribuir esse movimento exclusivamente a fatores externos – clima ruim, preço baixo de commodity, câmbio desfavorável.

Mas uma leitura mais cuidadosa aponta para algo mais estrutural: empresas que financiaram ativos de longo prazo (expansão de área, infraestrutura, maquinário) com passivos de curto prazo (capital de giro, antecipações, dívidas de safra) ficam extremamente vulneráveis no momento em que as margens se estreitam. Empresas que não consolidaram reservas durante os anos mais favoráveis sentem essa pressão de forma muito mais aguda.

Em outras palavras: o aumento de recuperações judiciais revela falhas acumuladas de governança e planejamento financeiro – não apenas um ano ruim.

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A pergunta que conselhos e investidores estão mudando

Esse cenário está mudando o tipo de pergunta que conselhos de administração e investidores fazem para a liderança executiva. Durante anos, a pergunta central era “quanto você cresceu”. Em 2026, a pergunta que ganha peso é outra: “quanto você preservou”.

Não significa que crescimento deixou de importar. Significa que crescimento sem capacidade de sustentação deixou de ser, isoladamente, um indicador de sucesso. Conselhos mais ativos e investidores mais exigentes estão promovendo ajustes estratégicos – e, em alguns casos, mudanças na liderança executiva – em empresas que não conseguem demonstrar essa capacidade.

O que efetivamente está sendo cobrado agora

Na prática, a lista de critérios que diferencia empresas preparadas das despreparadas em 2026 é objetiva:

  • Custo por hectare controlado e conhecido com precisão, não estimado de forma genérica.
  • Produtividade consistente ao longo de safras, não picos isolados seguidos de quedas.
  • Eficiência logística, especialmente relevante em um país onde o custo de frete pode variar significativamente entre regiões e tem subido de forma expressiva.
  • Gestão de risco estruturada, indo além de seguro agrícola básico e incluindo hedge, diversificação e cenários de stress financeiro.

Cada um desses pontos tem uma característica em comum: nenhum deles é resultado de um evento único. Todos são resultado de processos de gestão contínuos, revisados e levados a sério ao longo do tempo – não de discurso em apresentação de resultado.

Sobreviver, ajustar, executar

A síntese de 2026 pode ser resumida em três verbos: sobreviver, ajustar, executar com eficiência. Não é o discurso mais empolgante para quem está acostumado a falar de expansão e recordes. Mas é o que reflete a realidade de um setor que entra em um ciclo de maturidade.

A pergunta que toda liderança do agro deveria estar fazendo para si mesma, hoje, não é quanto a empresa pode crescer no próximo ano. É: se as condições continuarem apertando, o que a empresa tem de reserva – financeira, operacional, de gestão – para atravessar isso sem comprometer o que já foi construído?

Quem responder essa pergunta com clareza está, na prática, já um passo adiante da maioria.

Escrito por: Felipe Treitinger, engenheiro agrônomo e fundador da Cumbre – seu hub de educação, conexão e solução para o agro. 

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