Existe uma ilusão comum no planejamento agrícola: a de que o custo de uma safra é, em grande parte, uma decisão interna – quanto investir, quais insumos comprar, em que volume. Na prática, uma parte significativa desse custo é definida por fatores completamente fora do controle do produtor, muitas vezes a milhares de quilômetros de distância.
E o momento em que essas decisões externas mais pesam é exatamente agora: entre maio e agosto, quando o produtor do Centro-Oeste define os principais custos da safra 2026/27, cujo plantio começa a partir de setembro.
Como um conflito geopolítico chega até fazenda
A escalada de um conflito entre Estados Unidos e Irã pode parecer, a princípio, completamente desconectada do dia a dia de uma propriedade rural no interior do Brasil. Mas a cadeia de impactos é direta e mensurável.
A ureia, insumo essencial para diversas culturas, subiu mais de US$ 50 por tonelada. O diesel, fundamental para toda a operação agrícola – desde o preparo do solo até a colheita e o transporte – segue pressionado. E o frete internacional, que afeta tanto a importação de insumos quanto a exportação da produção, acumula altas de até 20%.
Nenhuma dessas variáveis foi definida no Brasil. Mas todas elas entram, de forma direta, no custo por hectare da próxima safra.
O tamanho do impacto, em números
Em lavouras de soja e milho – duas das culturas mais relevantes do agronegócio brasileiro, esse conjunto de pressões pode elevar o custo total entre 8% e 15%, dependendo do nível de investimento e tecnologia empregados em cada operação.
Esse intervalo pode parecer abstrato até ser colocado em perspectiva: em um cenário de margens já mais estreitas, uma variação de até 15% no custo total pode ser a diferença entre uma safra rentável e uma safra no zero a zero, ou pior.
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Por que a janela de decisão importa tanto
O que torna esse cenário particularmente desafiador é o timing. As decisões sobre compra de insumos para a safra 2026/27 estão sendo tomadas, em grande parte, exatamente no período em que essas pressões de custo se intensificaram.
Isso cria uma situação em que produtores e empresas que não têm um processo estruturado de monitoramento e decisão de compra acabam reagindo a notícias – comprando em momentos de pico de preço, por falta de planejamento, ou adiando decisões na esperança de que os preços caiam, e depois sendo pegos por uma alta ainda maior.
A diferença entre reagir e gerir
Esse cenário não é motivo para pânico, conflitos geopolíticos, variações cambiais e oscilações de preço de commodities sempre fizeram parte da realidade do agro. Mas é motivo para que a gestão de risco financeiro deixe de ser um tema reservado a grandes grupos e passe a fazer parte do planejamento de qualquer operação, independentemente do tamanho.
Na prática, isso envolve algumas frentes:
- Planejamento de compras escalonado, em vez de decisões concentradas em um único momento, reduzindo a exposição a picos de preço pontuais.
- Monitoramento de cenário internacional como rotina, não como reação, entender que eventos geopolíticos, cambiais e climáticos em outras partes do mundo afetam diretamente o custo local, e acompanhar isso de forma contínua.
- Uso de instrumentos de hedge e proteção de preço, quando aplicável, para reduzir a exposição a variações bruscas tanto de insumos quanto de venda da produção.
- Fôlego financeiro planejado, com reservas e linhas de crédito organizadas antes do momento de necessidade, não negociadas sob pressão.
O que separa quem entra preparado nessa safra
A safra 2026/27 já está, em boa parte, com seu custo definido, moldado por decisões tomadas fora do Brasil, em um contexto que nenhum produtor individual controla. Essa é a parte que não pode ser mudada.
O que pode ser mudado é como cada empresa se posiciona diante disso. Quem trata gestão de risco como parte central do planejamento e não como um luxo para momentos de crise, entra nessa safra em uma posição estruturalmente diferente de quem vai descobrir o custo real apenas quando a conta chegar.
A pergunta que vale levar para o planejamento desta safra não é “quanto vai custar”. É: “o quanto desse custo eu já consegui antecipar, planejar e proteger e o quanto ainda está em aberto, esperando a próxima notícia?”
Escrito por: Felipe Treitinger, engenheiro agrônomo e fundador da Cumbre – seu hub de educação, conexão e solução para o agro.




